Um acidente que resultou na morte de um trabalhador ao cair dentro de um maquinário em um porto de areia privado em Sarapuí (SP), acendeu um alerta sobre a segurança no setor industrial.
Para discutir prevenção e práticas eficazes, Leonardo Fazzilani da Silva, especialista em segurança industrial e adequação de máquinas da Schmersal, detalhou como tecnologias, normas regulamentadoras e uma cultura preventiva podem proteger profissionais e reduzir acidentes graves.
Leonardo R. Fazzilani da Silva, especialista em segurança industrial e adequação de máquinas da Schmersal
Mundo Agro: Como a automação e os sistemas de monitoramento contribuem para a proteção dos trabalhadores?
Leonardo Fazzilani da Silva: Os sistemas de automação e monitoramento atuam como um “vigia eletrônico”, contribuindo para a proteção dos trabalhadores ao reduzir a chance de situações perigosas. Isso acontece porque eles utilizam componentes confiáveis e interconectados, capazes de identificar falhas ou defeitos que poderiam comprometer o funcionamento de parte do sistema de comando. Quando isso ocorre, o próprio sistema reage e aciona controles para evitar que a condição insegura se transforme em um problema maior.
Mundo Agro: Quais tecnologias de segurança podem ajudar a evitar acidentes com máquinas e equipamentos?
Leonardo Fazzilani da Silva: A escolha das tecnologias a serem utilizadas depende muito da complexidade e da idade do maquinário, do ambiente em que ele opera e até mesmo das fontes de energia que o alimentam. A norma regulamentadora NR-12, por exemplo, orienta que sejam usadas soluções comprovadamente eficazes, considerando sempre a viabilidade técnica e econômica. Na prática, isso pode significar a adoção de diferentes recursos, como chaves de intertravamento eletromecânicas, sensores sem contato (magnéticos ou por RFID), cortinas de luz, scanners, relés e controladores de segurança, além de válvulas monitoradas e sistemas de acionamento inteligentes.
Mundo Agro: Qual a importância de uma cultura preventiva dentro das indústrias para reduzir acidentes?
Leonardo Fazzilani da Silva: Uma cultura de prevenção é essencial para reduzir ao máximo os acidentes em empresas e organizações. A NR-12 estabelece uma hierarquia clara de controle: primeiro vêm as medidas de proteção coletiva, depois as organizacionais e administrativas, e só por último as de proteção individual (EPIs). Entretanto, mais do que cumprir normas, criar uma cultura preventiva é urgente, pois exige compromisso tanto da gestão quanto dos trabalhadores, que têm papéis fundamentais na adoção e no uso correto dessas medidas.
Mundo Agro: Quais são os principais desafios das empresas brasileiras para implementar essa cultura?
Leonardo Fazzilani da Silva: Um dos maiores obstáculos é a forma como a segurança ainda é percebida dentro das empresas. Muitas vezes, ela é vista como custo e não como investimento, além de ser tratada de maneira reativa, só depois que os problemas acontecem. Isso se soma à pressão por produtividade, que acaba tolerando ou até incentivando comportamentos inseguros, o que mina a confiança entre trabalhadores e liderança. Outro desafio é o desequilíbrio: enquanto a falta de comprometimento gera condições e atos inseguros, um excesso de rigor, que vai além do que é razoavelmente previsível, pode atrapalhar o desempenho e aumentar custos desnecessários, reforçando a visão negativa sobre a segurança. Aqui, a expressão mais coerente é o bom senso.
Mundo Agro: O que os números de acidentes de trabalho no Brasil revelam sobre os riscos e a prevenção?
Leonardo Fazzilani da Silva: Os últimos relatórios oficiais revelam um aumento significativo, de cerca de 45%, na quantidade geral de acidentes em relação ao ano anterior, sendo que pouco mais de 74% ocorreram no ambiente de trabalho ou durante o exercício da atividade profissional. Isso mostra que os desafios continuam crescentes e que não basta apenas ter a segurança no papel — ela precisa se tornar parte do dia a dia da companhia.
Mundo Agro: Que lições podem ser aprendidas com acidentes como o ocorrido em Porto de Areia, SP?
Leonardo Fazzilani da Silva: É sempre importante aguardar o laudo das autoridades para confirmar o que de fato causou o acidente e em quais circunstâncias. No entanto, situações como uma queda de cerca de 4 metros reforçam a necessidade de atenção redobrada em trabalhos em altura. A NR-35 determina que apenas trabalhadores capacitados e autorizados devem executar essas atividades, sempre com uma Análise Preliminar de Risco (APR) e, quando necessário, uma Permissão de Trabalho ou procedimento operacional específico. Segurança é um assunto sério e não pode ser tratada de forma negligente. Por isso, é fundamental consultar especialistas em vez de tomar decisões precipitadas, adotar medidas improvisadas ou simplesmente acreditar que “já que sempre foi feito assim, nada vai acontecer justo hoje”.
