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Os impactos do mundo digital em uma sociedade ansiosa

Nos últimos anos, tenho observado — em meu convívio e no que chega até mim — um aumento significativo de problemas de saúde mental com consequências como dificuldade de foco, isolamento, perda de empatia e maior agressividade.

Nos últimos anos, tenho observado — em meu convívio e no que chega até mim — um aumento significativo de problemas de saúde mental com consequências como dificuldade de foco, isolamento, perda de empatia e maior agressividade. Os Dados confirmam essa percepção: em 2024, o Brasil teve um aumento de 68% nos afastamentos por transtornos mentais e segue como o País mais ansioso do mundo, segundo a OMS.

Mesmo considerando diagnósticos mais precisos e os efeitos da pandemia, isso não explica sozinho o crescimento tão acelerado. Meu primeiro palpite para essa mudança foi o ambiente digital. O brasileiro passa mais de 9 horas online por dia e está entre os maiores consumidores de redes sociais do mundo.

Dois livros me ajudaram a entender esse fenômeno: “O Cérebro no Mundo Digital”, de Maryanne Wolf, e “A Geração Ansiosa”, de Jonathan Haidt. Wolf mostra como a perda da leitura profunda (aquela que estimula reflexão, conexões complexas, análise crítica e empatia) enfraquece circuitos essenciais do nosso “cérebro leitor”. Sem esse hábito, ficamos mais vulneráveis à superficialidade e às fake news, além de menos capazes de compreender o outro.

Ao mesmo tempo, a hiperexposição a vídeos rápidos, notificações constantes e alternância contínua entre telas dificulta a concentração e desgasta nossa capacidade de pensar com profundidade. Cada vez mais, até crianças pequenas passam longos períodos com dispositivos nas mãos — o famoso “iPad como nova chupeta”.

No caso de Jonathan Haidt, sua obra investiga especialmente os impactos sobre crianças e adolescentes. Ele destaca duas causas principais: a perda do brincar livre e a entrada massiva das plataformas digitais entre 2010 e 2015, período que ele chama de “Grande Reconfiguração”. A partir daí, a infância baseada em interação social deu lugar à infância baseada no celular.

Segundo o autor, isso gerou quatro grandes prejuízos: menos convívio social, sono pior, atenção fragmentada e vício em aplicativos — um ciclo alimentado por notificações, algoritmos e recompensas rápidas. O resultado foi o aumento dramático de ansiedade, depressão e até suicídio entre adolescentes e jovens adultos.

Haidt recomenda quatro ações urgentes:

  • Celular só após o 9º ano (cerca de 14 anos);
  • Redes sociais apenas a partir dos 16 (aliás, no dia 10/12 foi aprovada uma lei nesse sentido na Austrália);
  • Nada de celulares nas escolas (desde janeiro deste ano, já são proibidos no Brasil);
  • Muito mais brincar não supervisionado e autonomia infantil.

Apesar dos riscos, ainda podemos reequilibrar nossa relação com o digital. Mais convivência real e o resgate da leitura profunda. Minha preferência é em livros físicos, como recomenda Maryanne Wolf, pois são caminhos para reconstruir o foco, a empatia e o pensamento crítico.

Os jovens leitores têm lido somente o que é exigido, enquanto outras pessoas têm usado o acróstico “MC; NL” (muito comprido; não li). Portanto, se você chegou até aqui, isto é um excelente sinal. Persista!

Por Rogério Baldauf, diretor Superintendente da Schmersal no Brasil.

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